Reviews

Resenha: Black Pantera chega a um novo auge criativo sem diluir o discurso e o peso em “Continental”

Deck (2026) – Nota: 5/5
Black Pantera – “Continental” (Capa)

Antes de tudo, uma perspectiva histórica: guardadas as devidas proporções, o Black Pantera está para o rock brasileiro contemporâneo assim como o Planet Hemp esteve para o rock brasileiro de sua época. Há uma semelhança na capacidade de transformar questões sociais, políticas e comportamentais em música pesada, acessível e conectada ao seu tempo.

Com Continental, seu quinto disco, o Black Pantera chega a um momento de maturidade artística em que suas referências já não aparecem como elementos simplesmente incorporados, mas como partes de uma linguagem própria. A linguagem do Black Pantera.

O trabalho consolida a identidade sonora de uma das bandas mais interessantes e genuínas do rock brasileiro contemporâneo — e permite outros paralelos. Continental é o Lado B Lado A (O Rappa) ou o Sobrevivendo no Inferno (Racionais MC’s) da atual geração.

As raízes do thrash metal e do hardcore continuam presentes — talvez mais fortes do que nunca, amparadas por uma produção robusta e encorpada —, mas agora acompanhadas de abordagens mais melódicas e enriquecidas por arranjos afro-latinos. A banda atinge aqui seu auge criativo sem deixar de mirar a expansão.

Seria um caminho fácil tentar repetir algo como a quase balada “Tradução”, do disco anterior, Perpétuo (2024). O Black Pantera, porém, não se permite esse movimento. Em vez disso, empreende um esforço consciente para equilibrar a necessidade de ampliar o público sem diluir a sonoridade ou o discurso.

Continental é um álbum pesado, mas acessível, construído sobre versos e refrões certeiros. É também um disco de enfrentamento, em que a experiência de homens negros, brasileiros e latino-americanos atravessa as canções por meio de temas como racismo, ancestralidade, identidade negra, espiritualidade e política.

A faixa-título, um hardcore frenético que abre o disco, estabelece esse território temático ao combinar uma perspectiva histórica e geopolítica com referências a Cazuza, Eduardo Galeano e Milton Santos — este último presente na música por meio de uma gravação histórica. “Seus heróis morreram de overdose, os meus morreram pelo corre”, canta a banda.

Em “Hórus”, o Black Pantera aborda a vigilância e o controle sobre pessoas negras utilizando o sincretismo religioso para traçar um paralelo entre vidas ancestrais e contemporâneas. A temática da ancestralidade continua em “Quanto Canto”, que conta com a participação de Sandra de Sá cuja voz dá ainda mais peso a versos como “Somos a voz de milhares que vieram antes de nós”.

O elenco de participações inclui ainda a rapper Duquesa, presente em “Serotonina”; Derrick Green, do Sepultura, que divide os vocais em “Obsoleto”; e Chico César, em “Banzo”. Nesta última, os versos “eles não entendem a nossa raiva, eles não conhecem a nossa dor” deixam evidente um eixo narrativo que permeia todo o disco: pessoas negras assumindo o próprio lugar de fala e confrontando discursos hegemônicos a partir de experiências que raramente ocupam o centro da narrativa.

Produzido por Rafael Ramos, o terceiro trabalho da banda pela Deck foi gravado no Estúdio Tambor, no Rio de Janeiro, mixado por Leo Ramos no Estúdio Estábulo e masterizado por Fernando Delgado no FD Mastering. “Hórus” teve masterização de Chris Gehringer, no Sterling Sound.

No fim, talvez a principal força de Continental esteja em não precisar escolher entre discurso e música, entre peso e alcance, entre identidade e expansão.O resultado é um disco que não apenas retrata uma experiência historicamente marginalizada, mas a transforma em perspectiva, discurso e música — sem pedir licença para ocupar esse espaço.

Notícias no WhatsApp:

Leia também:

2 comentários

Deixe um comentário

Descubra mais sobre Ok Music Play

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo