
Quanto maior a magnitude de uma banda, mais tênue se torna a linha que separa o lançamento genuinamente artístico da manobra estratégica de marketing. O U2 é um estudo de caso desse fenômeno. Em hiato de discos de inéditas desde 2017, o grupo entregou em 2023 o excessivo “Songs of Surrender”, que trazia quarenta releituras de seu próprio catálogo.
A narrativa oficial era romântica: décadas de performances ao vivo teriam maturado as canções e dado origem a novas abordagens que se impuseram criativamente. Embora a arte seja, de fato, um terreno orgânico em que obras nunca estão 100% finalizadas, a escala do projeto levantava suspeitas. É plausível que uma ou outra canção ganhe nova vida com o passar do tempo, mas crer que Bono e The Edge tiveram novos insights para quarenta faixas — incluindo todos os seus maiores sucessos — é flertar com a ingenuidade.
Ninguém enxergou a relevância artística das versões semiacústicas e desdentadas de “Sunday Bloody Sunday” ou “Pride (In The Name of Love)”. Talvez nem a própria banda. Na época, talvez como consolo, afirmaram que já trabalhavam em músicas inéditas que tinham a guitarra como carro-chefe.
Corta para 2026. O novo álbum ainda não chegou, mas o U2 resolveu quebrar o silêncio na Quarta-feira de Cinzas com um EP surpresa chamado “Days of Ash”. E é claro que eles têm uma justificativa: as novas canções seriam registros imediatos que não poderiam esperar para serem lançados (“Essas canções estavam impacientes para ganhar o mundo”, afirmou a banda). O disco? Só no final do ano.
O motivo da urgência: as músicas, de alto teor político, versam sobre conflitos da atualidade: as ações violentas do ICE nos EUA (“American Obituary”), a morte de uma jovem pelas forças de segurança do Irã (“Song of the Future”), as ações de Israel em Gaza (“Wildpeace” e “One Life At A Time”) e a guerra da Ucrânia (“Yours Eternally”, colaboração com Taras Topolia e Ed Sheeran).
Apesar da gravidade dos temas, é difícil não enxergar o movimento como uma estratégia de reposicionamento de marca. O argumento da urgência soa fabricado quando olhamos para o retrovisor: onde estava a “impaciência criativa” durante os conflitos dos últimos 10 ou 15 anos? O U2 parece ter redescoberto sua consciência social justamente quando sua relevância musical mingua, principalmente entre o público mais jovem.
“Days of Ash” é um paradoxo: cumpre uma agenda política que consegue chamar a atenção, mas se recusa a romper fronteiras sonoras em um descompasso evidente. Criativamente, o U2 repete estruturas, harmonias e timbres dos álbuns “Songs of Innocence” (2014) e “Songs of Experience” (2017), algo que já era tido como cansativo e pouco inventivo.
Não é um desastre, claro. A potência de “American Obituary”, por exemplo, é empolgante, mas deixa uma sensação de que falta uma grande melodia ou um riff mais marcante. “The Tears Of Things” e “Song Of The Future” trazem harmonias acústicas permeadas por arranjos de guitarras típicos de The Edge, mas a sensação de déjà vu permanece.
No conjunto, o registro não entrega o impacto sonoro que promete. O U2 tenta encontrar o seu lugar no cenário musical atual, mas derrapa ao deixar que estratégia de marketing se sobreponha ao conceito artístico. A abordagem política não consegue mascarar uma base musical que se recusa a abandonar a zona de conforto.

