
Thrasher, novo álbum solo de Brandon Flowers, vocalista do The Killers, representa uma guinada em sua trajetória. O cantor mergulha sem amarras na sonoridade country — gênero que faz parte de sua formação musical. Gravado em Nashville, o disco abandona o glamour e a grandiosidade para buscar referências no sudoeste americano e em histórias do interior.
Esse movimento de aproximação do cantor com suas raízes, porém, não surgiu do nada. Ele começou a ganhar forma em Pressure Machine (2021), álbum mais recente do The Killers, marcado por uma abordagem mais intimista. Flowers parece ter encontrado ali a confiança necessária para avançar em uma direção que há muito desejava explorar.
Para construir o universo sonoro de Thrasher, Flowers se cercou de músicos com experiência no country e na música de raiz americana, como David Rawlings (guitarra), Bruce Bouton (pedal steel) e Charlie McCoy (gaita), conhecido por seu trabalho com Bob Dylan. A escolha dos colaboradores ajuda a conferir ao projeto uma identidade musical coerente. Flowers não apenas incorporou a estética country: ele vestiu a persona e mergulhou no repertório que marcou sua formação.
A produção ficou a cargo de Shawn Everett e Jonathan Rado, que já trabalharam com o The Killers em Imploding the Mirage (2020) e Pressure Machine. A dupla ajuda a reproduzir texturas, timbres e arranjos capazes de aproximar o álbum da linguagem tradicional do country.
Flowers adota uma voz mais grave e encorpada, buscando transmitir uma sensação de aconchego e intimidade. Sua interpretação é sincera e espontânea, inclusive na tentativa de reproduzir o sotaque característico dos cantores country. As letras incorporam a regionalidade para contar histórias de cidade pequena, abordando relações familiares, dilemas, sonhos e fracassos.
As influências passam por Waylon Jennings, Johnny Cash, Willie Nelson e John Conlee. Tom Waits e Bruce Springsteen também se fazem presentes no DNA do álbum. Há espaço para elementos de rock aqui e ali, mas o country permanece como o eixo central da obra.
Brandon Flowers: disco pessoal e não essencial
O álbum é bem produzido, bem tocado e demonstra respeito pelo gênero. Flowers compreende os códigos do country e consegue reproduzir sua atmosfera com competência. O problema é que, em diversos momentos, essa reverência se transforma em emulação.
Thrasher soa como um álbum de alguém que gosta daquele universo e finalmente encontrou a oportunidade de explorá-lo, e não como a obra de um artista que precisava acrescentar algo novo ao estilo. Falta ao disco um pouco de estranhamento, de personalidade própria, de tempero. Flowers domina a linguagem, mas não a subverte.
O trabalho é o terceiro álbum solo de Brandon Flowers. Antes dele, vieram Flamingo (2010) e The Desired Effect (2015), trabalhos que, apesar de explorarem caminhos próprios, permaneciam mais próximos do universo sonoro do The Killers.
Apesar da popularidade do country nos Estados Unidos, Thrasher não transmite a sensação de ter sido concebido para surfar nessa onda. É um retrato do momento pessoal de Flowers, que encontrou uma linguagem para olhar para trás. É uma aventura sonora cujo resultado é competente, sincero e cuidadoso.
Para os fãs do The Killers, não há motivo para preocupação: Flowers já afirmou que continua ligado ao rock e que a banda já trabalha em um novo disco. Contudo, antes disso, o cantor sinalizou que pretende retornar ao country em um próximo trabalho, desta vez com uma abordagem mais romântica e voltada ao tema do isolamento.

