
Vinte e cinco anos após surgir como uma proposta inovadora de banda virtual, a partir da união criativa de Damon Albarn e Jamie Hewlett, o Gorillaz lança seu nono álbum de estúdio, “The Mountain”, e atinge um novo auge criativo, depois de um longo período de trabalhos que pouco surpreenderam.
A gênese do disco é marcada por uma coincidência trágica: a perda dos pais de Albarn e Hewlett em um intervalo de apenas dez dias, em 2024. Em busca de cura, a dupla do Gorillaz partiu para a Índia e, a partir do contato com as filosofias do hinduísmo, budismo e sikhismo, vislumbraram um conceito original: músicas estabelecem um diálogo entre vivos e mortos como forma de superar o luto.
“The Mountain” explora a ideia de que a existência continua através da frequência sonora. Para isso, a banda “ressuscitou” registros inéditos de colaboradores falecidos como Proof (D12), Mark E. Smith (The Fall), Trugoy the Dove (De La Soul), Bobby Womack, Tony Allen e Dennis Hopper.
O álbum promove um encontro geracional e cultural: nomes históricos como Paul Simonon e Johnny Marr dividem espaço com talentos atuais como Joe Talbot (IDLES), Jalen Ngonda e Trueno. A mística oriental é reforçada por Anoushka Shankar e o flautista Ajay Prasanna, unindo-se a Yasiin Bey (Mos Def), Omar Souleyman, Asha Puthli e Asha Bhosle.
Essa variedade de interfaces artísticas poderia ter resultado em um álbum disperso e inconsistente, mas ocorre o contrário. Albarn e Hewlett apresentam seu trabalho mais coeso em muitos anos, sem perder, obviamente, a característica híbrida do Gorillaz. O disco funde diferentes paisagens sonoras como o indie, electropop, punk e rap, boogie, reggae, acid house com a espiritualidade de instrumentos indianos tradicionais como a sitar, o sarod e a flauta bansuri. O resultado é sólido: sonoramente e tematicamente.
O disco abre com a faixa-título, “The Mountain”, que de imediato mergulha o ouvinte na sonoridade típica indiana em uma melodia extremamente tocante e comovente; Dennis Hopper interage do além com Ajay Prasanna, Anoushka Shankar e outros nomes indianos. Mais adiante, “The Happy Dictator” apresenta uma sátira política a partir de uma estrutura musical oriunda do indie, mas com diversos arranjos sonoros.
“Orange County” é outro ponto alto e ressalta uma das principais características do álbum: com sua melodia alegre trata da dor de dizer adeus. “The Manifesto” é uma faixa épica de 7 minutos que promove um encontro virtual entre o falecido Proof e o rapper argentino Trueno. Johnny Marr, dos Smiths, contribui, ao lado dos já citados artistas locais, com a soturna “The Empty Dream Machine” e a alegre “The Plastic Guru”.
O álbum funciona como um guia para ressignificar a perda, provando que o luto pode ser vibrante em vez de silencioso. O Gorillaz equilibra dor e vitalidade por meio de uma paisagem sonora contemplativa e rica, em que transforma o cinza da tristeza em cores de euforia.
O resultado é um esforço artístico que cruza a fronteira entre pop ocidental e a mística indiana para ressignificar a perda e explorar a finitude da vida de forma otimista. Um lembrete sonoro de que a morte não é um silêncio absoluto.

