Entrevista

ENTREVISTA: Giovani Baroni fala sobre o álbum bLU e a criação de seu universo conceitual

Músico relembra sua trajetória na cena independente, explica o conceito inspirado pela água e detalha o processo de composição e gravação do trabalho

Com uma trajetória construída na cena independente de São Paulo, o músico e compositor Giovani Baroni chega ao trabalho solo trazendo consigo experiências acumuladas em diferentes projetos, cidades e contextos musicais. À frente do sukya || porno, ele desenvolveu uma maneira particular de compor, marcada pela mistura de gêneros, mudanças inesperadas e liberdade criativa — características que continuam presentes em sua produção atual.

Em bLU, essas experiências ganham uma nova dimensão. Concebido como um álbum conceitual, o trabalho utiliza a água e o universo oceânico como elementos centrais de uma narrativa que atravessa as dez faixas. A proposta combina referências de shoegaze, emo, rock progressivo e psicodelia.

O processo também representou uma mudança na maneira de Baroni trabalhar. Em vez de concentrar todas as funções, como havia feito anteriormente, o artista passou a delegar etapas da produção e incorporou as contribuições de parceiros em diferentes partes do projeto, mantendo para si principalmente a composição e a construção do universo conceitual do álbum.

Nesta entrevista, Giovani Baroni fala sobre a trajetória na música independente, a experiência de trabalhar sozinho, a concepção de bLU, a presença simbólica da água nas composições, suas diferentes influências musicais e o processo de gravação.

O que sua trajetória na música independente de São Paulo ensinou sobre música, composição e sobre o próprio processo de encontrar uma identidade artística?

Com o sukya || porno eu aprendi a compor e a ser fiel ao que eu acredito artisticamente.

A gente recebia críticas naquela época por ter algumas músicas doidas demais, sem um fio condutor, misturando vários subgêneros e mudando o rumo no meio da música, e continuo fazendo isso até hoje no meu trabalho solo, mesmo sabendo que não agrada a todo mundo. Sempre escuto alguém reclamar que “a música mudou abruptamente”, mas, bom, esse é o ponto. Eu diria que o sukya || porno foi uma fundação que ainda influencia muito meu trabalho hoje.

Além disso, aprendi muito sobre como colaborar com pessoas boas é importante para moldar um projeto de qualidade, mesmo em uma carreira solo. Cada pessoa envolvida no processo coloca um pouco de quem ela é no que faz, e isso contribui demais para a identidade artística. As diferentes visões e vivências enriquecem o “mosaico” com mais cores, e eu quis trazer isso de volta com bLU: tive uma rede de quase 10 pessoas (cada uma em uma parte do mundo) contribuindo com o projeto de diferentes formas, seja na composição, na gravação, na identidade visual, nos vídeos etc.

Em que momento surgiu a vontade de transformar essas experiências em um projeto solo? O que você queria fazer como artista solo que talvez não fosse possível nos trabalhos anteriores?

Num projeto solo se tem mais autonomia e liberdade, o que é bom e ruim. É massa ter total controle da direção e da narrativa que você quer contar. O lado negativo é que, se você não tomar cuidado, a caminhada pode ser solitária às vezes – é muito bom ter um parceiro musical para mostrar suas demos, trocar figurinhas e ganhar a confiança para dar as caras para o mundo. No projeto solo você precisa peitar todas as decisões sozinho, e tudo acaba tendo seu nome estampado.

Apesar de eu valorizar demais trabalhar com um conjunto, estar em banda traz um desafio muito complicado, que é ter todos os integrantes alinhados em todos os aspectos. Todo mundo precisa concordar com todas as decisões, e se os níveis de dedicação dos integrantes estiverem destoando, podem surgir conflitos.

Como surgiram essas músicas e quando percebeu que elas formavam uma narrativa maior?

Desde o EP TALASSOFOBIA, com o sukya || porno, eu queria contar uma história envolvendo água e o oceano, mas por conta da complexidade disso e do tempo e esforço exigidos, a gente acabou limitando o escopo daquele EP, mas a ideia continuou na minha cabeça. Eu cresci apaixonado por álbuns conceituais clássicos, que conseguem sustentar uma narrativa ou um tema contínuo, como um filme: para mim nada era mais imersivo no meio musical do que Dark Side of the Moon do Pink Floyd, Metropolis Pt. 2 do Dream Theater e Temple of Shadows do Angra, e sempre foi meu sonho atingir algo do tipo. Prefiro álbuns pacientes a singles urgentes.

Em dado momento me dei conta de que eu tinha um punhado de músicas na gaveta com essa imagética aquática, e que se complementavam: juntas, contavam uma história maior do que isoladamente. A ideia de fazer bLU foi natural e espontânea, simplesmente aconteceu.

De onde veio o conceito e como ele influenciou a composição das músicas, das letras e dos arranjos ao longo da produção?

A água tem muitas propriedades interessantes, como sua onipresença, sua fluidez e sua importância na vitalidade das espécies, que reforçam seu potencial de metáfora e de símbolo de transformação – e, por tabela, os peixes que habitam a água também ocupam um espaço simbólico importante. O piano foi bastante usado para remeter à água em seu estado de calmaria, e guitarras sobrepostas com bastante phaser foram usadas para remeter a um espaço mais onírico da água.

Cresci em Recife (PE), com o mar sempre próximo a mim, e essa presença se manteve no meu imaginário mesmo quando me mudei para cidades secas, fisicamente longe do mar (seja em São Paulo ou na Cidade do México). O álbum invoca essa sensação aquática para construir um universo altamente simbólico, uma espécie de experimentalismo sensorial que serve de pano de fundo para metáforas íntimas e existenciais.

O maior desafio foi fazer com que esse universo fosse coeso e que tudo parecesse parte de uma mesma jornada.

Você reúne no disco elementos de shoegaze, emo, rock progressivo e psicodelia. Como foi encontrar o equilíbrio entre essas influências?

Para falar a verdade, eu passei a mencionar esses rótulos e subgêneros depois que o álbum estava completo, para tentar explicar para alguém de fora com o que ele se parece. Na hora de compor e gravar não fica claro qual referência se tem em mente; as ideias são difusas e não estão guardadas em caixinhas bem definidas – eu não penso tipo “vou puxar pra psicodelia agora”, eu só penso em qual história quero contar, de que forma, e quais aspectos sensoriais quero evocar.

Você é multi-instrumentista, compositor e produtor. Durante a gravação de bLU, como essas diferentes funções se relacionaram?

Desisti de cuidar de todas as funções (como eu fazia em trabalhos anteriores) e passei a delegar e a confiar na visão artística de parceiros, para enriquecer o trabalho e para eu poder focar no mais importante: escrever e compor, criar esse universo conectado. Pedro Serapicos reescreveu e gravou as linhas de baixo, mixou e contribuiu com a produção do álbum. Bianca Predieri reescreveu e gravou a bateria. A música “Fishy Boy” eu escrevi junto com meu irmão Ricardo Baroni e com Mardem Humberto (ex-baterista do sukya || porno). Jorge Sulser participou nos vocais de “Efervescente”, e os videoclipes e o álbum visual foram feitos pelos amigos de longa data Léo Lopes, Lira Kim e Luca Tornato – cada pessoa em uma cidade, ou até país, diferente. Foi muito divertido poder somar em um projeto desse porte com amigos do meio artístico. Dei total liberdade para cada um se expressar da forma que acredita, e o resultado foi incrível.

Você já chegou ao estúdio com as músicas e os arranjos praticamente definidos ou o disco foi ganhando forma durante as gravações?

Gravei as demos das músicas sozinho em casa (bateria, baixo, guitarra etc.) e depois fomos trabalhando em cima delas. Os músicos regravaram bateria e baixo, mudando as linhas, e isso acabou mudando a cara das músicas; eu regravei os vocais com essa nova roupagem, mais evoluída. Algumas músicas mudaram muito durante as gravações e passaram por algumas iterações até ficarem com essa cara, como “Paseo Largo” (que já foi uma música de MPB antes de ter esse estilo meio jazz) e “Efervescente” (que já teve uns 3 refrões e letras diferentes).

O álbum é cantado em português, inglês e espanhol. Como a escolha do idioma interfere na composição para você?

Cada lugar em que moramos compõe parte de quem somos, e isso afeta a forma como vemos as coisas (já morei em Recife, Itajubá, São Paulo, Glasgow e Cidade do México). Com o idioma acontece algo parecido: quando canto em espanhol penso em Pescado Rabioso; quando canto em português, penso em Mombojó.

Apesar disso, acontece uma coisa engraçada quando se tem essa característica cosmopolita no dia a dia: você acaba embolando todos os idiomas ao mesmo tempo e fica difícil separá-los. Em casa, com minha esposa, brincamos que já não sabemos falar português, e sim um idioma próprio, misto de português-espanhol-inglês-italiano. Isso afeta profundamente a forma como escolho as palavras para as letras. Para dar um exemplo, às vezes, ao cantar em português, uso a palavra “ao revés” mesmo que o mais comum fosse “ao contrário” – o que acontece porque, em espanhol mexicano, o mais comum é “al revés”, e acabei acidentalmente adotando essa estrutura menos comum no português.

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