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Resenha: Mastodon encara o luto e tudo o que ficou por dizer em Morrow Deep

Loma Visra Recordings - Nota: 4/5

A morte como tema lírico já atravessou a trajetória do Mastodon algumas vezes. Em Morrow Deep, a dor da perda está de volta, mas surge com contornos mais complexos. Hinds deixou o Mastodon em março de 2025. Pouco tempo depois, soltou o verbo contra os ex-colegas de banda e morreu meses mais tarde, em um acidente de moto. Quase na mesma época, o baterista Brann Dailor perdeu a mãe.

Na sequência dos acontecimentos, a banda decidiu entrar em estúdio para começar a gravação do disco. Sem a possibilidade de uma eventual reconciliação com o guitarrista, restaram sentimentos contraditórios: culpa, ressentimento, remorso, saudade, admiração e tudo aquilo que ficou por dizer. E isso está muito presente no disco. Além do luto, a banda elabora a relação conturbada com o músico.

Morrow Deep é um exercício terapêutico levado ao limite. Ao longo de suas 12 faixas e mais de uma hora de duração, a banda alterna peso e contemplação como quem oscila entre reflexão e acessos de raiva. Riffs brutais e agressivos convivem com melodias melancólicas, passagens cadenciadas, dinâmicas expansivas e atmosferas psicodélicas.

“Barbarians Blood” já estabelece o clima de devastação. “Estamos em perigo perdendo tudo enquanto o fogo queima tudo o que um dia amamos”, diz a letra. Os riffs cortantes e a alternância entre o andamento cadenciado e a aceleração ajudam a traduzir o estado emocional que atravessa o álbum.

“Snakes for Dinner”, que conta com a participação de Josh Homme, do Queens of the Stone Age, tem ritmo frenético e parece servir de trilha sonora para alguém que anda em círculos, incapaz de encontrar uma resolução. “Tudo o que consegui encontrar em meio à sujeira foram memórias”, canta Dailor.

“Out Like a Lamb” segue por um caminho mais expansivo. Os seus quase seis minutos são utilizados para explorar diferentes texturas e uma atmosfera psicodélica, até desembocar em um solo particularmente emocionante. Na letra, o baixista e vocalista Troy Sanders lamenta: “Falhamos em viver um do outro, mesmo assim, entregamos nossos corações a você”.

“In the Ruins” reduz a velocidade e começa quase como uma balada para, mais adiante, explodir em fúria. A letra e a atmosfera da música foram influenciadas pela destruição da casa de Sanders, provocada pelo furacão Helene em 2024, que deixou sua família desalojada por dois anos.

Geezer Butler, do Black Sabbath, participa de “The Vanishing”, um dos grandes momentos do álbum. Psicodélica e progressiva, a faixa carrega ainda um significado especial por funcionar como homenagem à mãe de Dailor, fã do Black Sabbath e admiradora de Butler. O timbre do baixo na introdução remete imediatamente a “N.I.B.”.

Morrow Deep também marca a estreia de uma nova formação: o Mastodon agora é oficialmente um quinteto. O guitarrista Nick Johnston assume o posto deixado por Brent Hinds, enquanto o tecladista brasileiro João Nogueira é efetivado como quinto integrante, depois de atuar como músico de turnê e participar do álbum anterior. Os dois encontram espaço para imprimir suas características no disco, mas é Nogueira quem mais chama atenção, especialmente em “Moth and Bone”, “The Vanishing” e “The Three Fates”. Esta última se transforma em uma longa e hipnotizante jam progressiva.

Nem tudo funciona com a mesma intensidade. A duração e a densidade fazem de Morrow Deep um álbum difícil de absorver de uma só vez, e algumas faixas parecem carregar mais gordura do que deveriam. “A Vampire’s Demeanor”, por exemplo, recupera uma agressividade mais crua, próxima de momentos do início da carreira do grupo, mas soa menos inspirada diante das passagens mais inventivas do trabalho.

Na balança final, Morrow Deep se impõe como um dos trabalhos mais singulares da discografia do Mastodon. A ausência de Hinds paira sobre cada faixa, não como uma homenagem convencional, mas como uma ferida ainda aberta. O resultado é um álbum tempestuoso, por vezes excessivo e emocionalmente exaustivo, mas justamente por isso profundamente humano.

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