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Dinosaur Jr repete fórmulas e entrega álbum consistente

Jagjaguwar (2021) – Nota (1 a 5): 3,5
Dinosaur Jr – Sweep It Into Space – Capa / Reprodução

Um dos maiores e mais legais clichês hollywoodianos é o da familiaridade excessiva. É sempre a mesma história: a personagem está tão habituada a um local (um bar, um café, um restaurante), que basta chegar lá e os atendentes já sabem que o pedido será “o de sempre”. Há quem diga que repetição é ruim, mas, neste caso e em tantos outros, mais do mesmo pode ser uma coisa boa. O álbum “Sweep It Into Space (2021”, do Dinosaur Jr, é um bom exemplo disso.

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Conhecendo os dinossauros do Dinosaur Jr

A banda é jurássica, no melhor sentido possível da palavra. É uma gigante no cenário do rock alternativo norte-americano desde meados de 1980, quando lançou seu primeiro álbum, “Dinosaur (1985)”. De lá pra cá são 12 trabalhos, incluindo o mais recente. O trio mantém a mesma formação, com o icônico J Mascis nos vocais e guitarras (muitas guitarras), Low Barlow no contrabaixo e vocais, e Murph na bateria.

Após um hiato de quase dez anos, causado por desentendimentos entre Mascis e Barlow, duas mentes criativas com personalidades fortes, o Dinosaur Jr retornou em 2007 e, desde então, produziu cinco ótimos álbuns. Hora de falar sobre o trabalho recém-lançado.

Sweep It Into Space: quando mais do mesmo é uma coisa boa

A trajetória de quase quatro décadas do Dinosaur Jr é marcada por elementos bem característicos: letras sentimentais, vocais rasgados, guitarras distorcidas e longos solos melódicos. Descrevendo assim pode parecer uma combinação perigosa, quase brega, mas, na prática, o resultado é muito positivo. Prova disso é que desde o álbum “Beyond (2007)”, o grupo mantém as fórmulas de sempre. Todas elas estão presentes em “Sweep It Into Space”, um trabalho com sonoridade atual e gostinho de anos 90, co-produzido por Kurt Vile.

“I ain’t” abre o álbum com a repetição do melancólico verso “eu não sou bom sozinho”, numa canção de estilo happy-sad em que a melodia e a composição contam histórias diferentes. Letras sentimentais, confere. A voz de J Mascis (55 anos) permanece a mesma , provavelmente por cantar num estilo que não exige o mesmo esforço de nomes como Dave Grohl, por exemplo. O timbre e o estilo inconfundíveis do vocalista se destacam, por exemplo, em “To Be Waiting”, uma lamentação sobre a tristeza de esperar por alguém sem reciprocidade: “Tentando voltar / Tentando se libertar / Eu tentei mais por você / Você está aí para mim?”

O novo álbum é mais melódico se comparado, por exemplo, a “Give a Glimpse of What Yer Not (2017)”. De uma abordagem com ecos do punk, o grupo flerta com o power-pop dessa vez. Músicas como a otimista “Take It Back” evidenciam essa aposta, com espaço até para uma linha de teclado polifônico Mellotron que surpreende positivamente. Isso não quer dizer, obviamente, que os solos e as distorções se foram. Jamais. Ambos os elementos aparecem em todas as 12 faixas, de um modo ou de outro. 

Porém, são nas pequenas variações que o álbum brilha e chama a atenção. O ponto alto é quando o baixista Low Barlow assume os holofotes com a composição, as guitarras e os vocais de “Garden”, a faixa mais bonita do disco. Começando em “Beyond (2007)”, todos os lançamentos contam com exatas duas músicas sob a tutela do baixista, que costuma aproveitar bem o seu tradicional espaço. Assim, por duas vezes a cada álbum, o Dinosaur Jr lembra momentaneamente o Sebadoh, banda fundada por Barlow no período de hiato do grupo. 

No review da Pitchfork, Zach Schonfeld brinca que a tradição de duas músicas por álbum para Barlow é tão consistente que deve ser uma cláusula de contrato. Seja como for, o sistema de trabalho adotado pelo trio parece funcionar e não há razão para mexer em time que está ganhando. Daqui a dois ou três anos o Dinosaur Jr deve lançar outro trabalho e os fãs já aguardam ansiosamente pelo resultado positivo, o mesmo de sempre.

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