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Artigo

A história de “Pablo Honey”, o disco renegado do Radiohead

O primeiro disco do Radiohead foi lançado no dia 22 de fevereiro de 1993. A banda não ficou satisfeita com o resultado que teve apenas um sucesso, a música "Creep"
Radiohead_-_Pablo_Honey
Imagem: Radiohead – “Pablo Honey

O Radiohead é uma das bandas mais influentes de todos os tempos. O grupo britânico de rock alternativo tem a aclamação do público e a admiração da crítica. Seu terceiro álbum, “Ok Computer”, de 1996, por exemplo, foi escolhido como o mais importante dos últimos 35 anos pela revista americana SPIN. É frequente a presença de um ou mais discos da banda em listas de melhores de todos os tempos. 

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Diferente de algumas bandas que chamam a atenção já no primeiro disco, o Radiohead não angariou, de imediato, o respeito que tem hoje. Seu primeiro disco, “Pablo Honey”, quase não foi notado, de imediato, e recebeu avaliações bastante desfavoráveis da crítica especializada. A banda chegou a ser classificada como mais uma que tentava surfar na onda grunge. 

“Pablo Honey” conquistou notoriedade por apenas um sucesso, “Creep”, embora tenha tido outros dois singles, “Anyone Can Play Guitar” e “Stop Whispering”. A própria banda não gostou do resultado final, admitiram os integrantes em diversos momentos. “Carece de liberdade. No primeiro disco, estávamos tão assustados. É muito mais controlado, eu acho, devido ao nosso próprio medo e inexperiência”, disse o guitarrista Jonny Greenwood durante uma entrevista à Guitar World em 1998. 

“Creep” é até hoje a música mais popular do Radiohead.

Origem do Radiohead e a semente de “Pablo Honey”

O Radiohead surgiu em 1985 com o nome de On A Friday. Os cinco integrantes se conheceram na Abingdon School, localizada nos arredores de Oxford. “Pablo Honey” seria lançado no dia 22 de fevereiro de 1993, oito anos depois. Nesse meio tempo, houve uma pausa no grupo para que os integrantes se dedicassem à faculdade, retornaram em 1991, assinaram com a EMI em 2 de março de 1992 e lançaram o EP “Drill”, neste mesmo ano. O trabalho trazia quatro faixas “Prove Yourself”, “Stupid Car”, “You” e “Thinking About You”. Com exceção de “Stupid Car”, todas as outras três foram regravadas para o álbum. 

O contrato com a gravadora foi conquistado a partir de uma demo, uma aposta arriscada na época. “Eu estava me preparando para sair da EMI quando esses rapazes apareceram”, explica Carol Baxter, representante da empresa, em 1997 (via Mojo). “Bando de tuberculosos perturbados, pensei. Mas eles eram ambiciosos e espertos. No começo, tive que esconder minha papelada do Radiohead atrás dos arquivos de Tina Turner e Queensrÿche, porque meu chefe achou que eu estava perdendo meu tempo. Então veio a ligação, de Israel, na verdade, dizendo que a banda fez um sucesso.”

“Drill” foi gravado entre outubro de 1991 a fevereiro de 1992 no Courtyard Studio, localizado em Oxford, de propriedade de Chris Hufford, que produziu o registro e, ao lado de Bryce Edge, tornou-se administrador da carreira do Radiohead. “O último trabalho de estúdio que fiz foi o álbum final do Slowdive, e foi um pesadelo. Eu estava efetivamente trabalhando 20 horas por dia e era fisicamente exaustivo, então decidi que tinha que parar de fazer isso e colocar todas as minhas energias no Radiohead” (via Independent). Nessa época, “Creep” já havia se tornado um sucesso nos Estados Unidos.  

“Drill” foi o primeiro lançamento oficial do Radiohead por uma gravadora.

A primeira gravação comercial do Radiohead alcançou o número 101 nas paradas do Reino Unido, não foi um sucesso estrondoso, mas foi o suficiente para garantir a gravação do primeiro álbum completo. Eles foram atrás de Paul Q. Kolderie e Sean Slade, que já tinham produzido artistas como Buffalo Tom, Juliana Hatfield e Dinosaur Jr. Depois de sessões frustradas de gravação das músicas “Inside My Head” e “Lurgee”, “Creep” foi registrada, sem aviso, em uma única tomada. “No final, todos no local ficaram em silêncio por um momento e depois explodiram em aplausos. Isso nunca aconteceu antes”, em entrevista à revista Mojo (via UCR).

Thom Yorke comentou a decisão de gravar com Paul e Sean, durante entrevista ao The Scene (via Prog). “Recebemos a fita deles e tem coisas como Lemonheads, 360s, Dinosaur Jr, todas essas bandas; coisas geniais, e nós surtamos. Nós pensamos que tinha que acontecer. Eles têm ângulos diferentes e interessantes sobre as coisas e trabalham muito bem juntos. Foram três semanas muito intensas… três semanas maníacas do caralho”, relatou. As gravações de “Pablo Honey” foram realizadas entre setembro e novembro de 1992 nos estúdios Chipping Norton, Oxfordshire, e no Courtyard Studios. 

Israel foi responsável pelo sucesso inicial do Radiohead

“Creep” foi lançada como single no dia 21 de setembro desse mesmo ano. A música passou despercebida no Reino Unido até que se tornou sucesso nas rádios de Israel por causa de Yoav Kutner, um DJ da estação israelense Galei Tzahal, que recebeu uma cópia do single e começou a tocá-lo na programação. Obviamente, chamou a atenção da EMI, que aproveitou a oportunidade: levou a banda para realizar shows em Tel Aviv e veiculou comerciais do disco na TV local. 

A receptividade em Israel não alterou o status da banda em seu país.  “Foi como Cinderela, sabe? O relógio chega à meia-noite e eles voltam a ser anônimos”, disse o ex-chefe da EMI Israel, Uzi Preuss (via Vulture). O jogo começou a virar, quando a onda israelence repercutiu nos Estados Unidos. O clipe de “Creep” rodou até a exaustão na MTV, desempenho que se repetiu nas rádios do país: a faixa foi à posição 34 na Billboard e as vendas de “Pablo Honey” foram alavancadas, tornando-se disco de ouro. 

O sucesso na américa forçou a gravadora a relançar “Creep” como single, em 1993, e o Radiohead foi parar no Top 7 em sua terra natal. A turnê também decolou: foram 130 shows durante o ano, incluindo duas idas aos Estados Unidos. A banda tornou-se sucesso mundial com o seu primeiro disco, mas começou ser vista como banda de um sucesso só, afinal os outros dois singles não emplacaram. 

“Acho que não podemos explicar porque os americanos gostam de nós”, disse Jonny Greenwood ao Evening Standard. “Fiquei assustado com a reação que tivemos na América porque ainda nos sentimos como uma nova banda – estamos em turnê há apenas um ano na Inglaterra”. Em bate-papo com a  NME, Thom Yorke desdenhou: “Eu realmente não posso levar nada disso a sério. A América é um lugar tão estranho. As pessoas são realmente generosas, legais e gentis, mas … Também tem uma energia que falta na maioria dos países europeus. É basicamente um animal burro.”

O primeiro disco do Radiohead não decolou de primeira.

Gravadora acreditou no sucesso da banda 

A gravadora parecia acreditar no Radiohead. “Sabemos que esta é uma banda com futuro, não uma maravilha de um hit”, disse Tom Corson, vice-presidente de desenvolvimento artístico da Capitol Records, na época, selo responsável por lançar o disco nos EUA (via Billboard). “Nosso desafio central é quebrar essa banda em um contexto alternativo – um que permaneça fiel à sua visão”, acrescentou. 

Tom Corson sugere que houve esforço para fazer a banda virar: “A música, o vídeo e tudo estava disponível há quase um ano na Inglaterra, e eles fizeram um ótimo trabalho lá em termos de imprensa“, observou. “‘Creep’ também foi devidamente imaginado para nos dar um salto inicial aqui, e levamos muito tempo para configurá-lo na faculdade e no varejo – especialmente nas lojas alternativas perto dos campi.” 

Foram adotadas estratégias de vendas agressivas: “O bebê na capa do álbum foi uma ótima imagem, e lançamos um número limitado de CDs com uma caixa de joias amarela para mostrar às pessoas que era um projeto especial sem exageros – para nos dar a oportunidade de ser o azarão, que faculdade -pessoas alternativas gostam“, contou.

Radiohead renega “Pablo Honey”

Apesar de ter tido quase uma década para lapidar o repertório de “Pablo Honey”, o resultado desagradou a banda. O disco foi gravado em apenas três semanas e reaproveitou três faixas do EP “Drill”. Conforme relatado anteriormente,  Jonny Greenwood sentiu que eles não tiveram a maturidade necessária para conduzir o processo. O outro guitarrista da banda, Ed O’Brien, também tinha uma opinião semelhante: “Nunca tínhamos estado em um estúdio antes, não éramos muito coesos como banda e éramos totalmente inseguros” (via Guitar World). 

O músico, no entanto, ponderou: “Há muitos erros nisso, mas você aprende com seus erros. Eu ainda acho que é um álbum válido. É muito alto, bastante hedonista – ‘Vamos colocar oito overdubs de guitarra e aumentar o volume!’ Acho que é um daqueles álbuns que você pode colocar em um carro aberto em uma noite de sábado indo para uma festa, mas eu poderia estar errado.”

As comparações com a cena grunge também incomodavam os integrantes. “Eu adoraria estar na Sub Pop. Não seria ótimo? Eu não teria que me preocupar em escrever nenhuma música então, apenas conseguir algumas pilhas Marshall e alguns pedais, e eu estaria bem longe , hein?”, declarou Thom Yorke ao Melody Maker. “A música pop tornou-se tão compartimentalizada. Como um grupo, você não pode mais apenas existir. Você tem que ser uma banda grunge, ou uma banda indie, ou uma banda de soul”, acrescentou. 

“A banda nunca ficou feliz com isso, mas foi um instantâneo do desenvolvimento deles”, disse Chris Hufford (via Clash). “De qualquer forma, os primeiros álbuns geralmente são difíceis, porque é isso que as pessoas querem”. Paul Kolderie chegou a destacar o alto nível de exigência do grupo, o que, inevitavelmente, seria fonte de frustração: “Foi o primeiro disco deles e eles queriam ser os Beatles” (Mojo via Guitar). 

A insatisfação do Radiohead com “Pablo Honey” pode ter relação com o fato de que eles já estavam em outra página quando o disco saiu e saturados daquelas músicas que trabalharam por anos. Paul ofereceu um indicativo quando relatou que Thom Yorke mostrou a eles, após o fim das gravações, uma demo inédita: “Estávamos lutando para encontrar material, então, fiquei um pouco chocado quando de repente ele lançou um lote de músicas que são melhores do que qualquer coisa em ‘Pablo Honey’” (via NME).

O estigma de serem vistos como banda de um sucesso só pode ter originado a pressa em seguir a diante: “Acho que o pensamento de que podemos ser representados por apenas uma música me incomoda, sim. Isso me irrita, mas ao mesmo tempo eu gostaria de seguir com minha vida, muito obrigado. Eu deveria ser grato”, disse Thom Yorke à Creem em outubro de 1993. 

A ansiedade dos músicos transparecia na convicção do vocalista Thom Yorke de que o trabalho seguinte seria melhor: “O segundo álbum será muito melhor que o primeiro. O primeiro foi bastante falho e espero que o novo faça mais sentido. Eu gosto do primeiro álbum, mas éramos muito ingênuos. Nós realmente não sabíamos como usar o estúdio”, falou ao Melody Maker (via Rolling Stone). 

Os integrantes sempre se referiram ao álbum deixando transparecer incômodo, expectativa e confiança no que estava por vir. Em entrevista à Billboard para falar de “The Bends”, o baixista Colin Greenwood disse: “Queríamos fazer este novo disco há um ano e meio, mas o sucesso de ‘Creep’ nos Estados Unidos nos impediu de entrar em estúdio. O atraso adicionou um espírito de rua experiente que provavelmente não estaria lá se tivéssemos gravado antes. É muito mais descontraído do que o nosso primeiro disco.”

“Anyone Can Play Guitar” foi o segundo single de “Pablo Honey”, mas não repetiu o sucesso de “Creep”.

“Pablo Honey” é ignorado nos shows

Com o passar dos anos, “Pablo Honey” foi praticamente limado dos setlists do Radiohead. Isso se deve ao descontentamento dos músicos e também pelo fato de seus trabalhos seguintes serem bastante celebrados, não deixando espaço para um disco pouco querido. De acordo com o site setlist.com, o álbum apareceu 1680 vezes nos shows do grupo, ocupando a quarta posição atrás de “Kid A” (1718), “Ok Computer” (2759) e “The Bends” (3243). Praticamente, todas as  músicas do álbum desapareceram dos shows a partir de 1995, com exceção de “Creep”, que apareceu esporadicamente nos anos seguintes, sendo a faixa do disco mais lembrada, com 413 execuções ao vivo em 30 anos. 

Não há espaço para o saudosismo no Radiohead. Mesmo anos depois, a percepção de “Pablo Honey” continua negativa. Em conversa com o The Face, em 2020, Ed O’Brien disse: “Eu me lembro como era a voz de Thom nos primeiros dias. Não é o que você vê agora. Radiohead nos primeiros dias, aquele primeiro álbum era uma merda, exceto por uma música!”

Ele prosseguiu: “Não éramos tão bons, mas trabalhamos duro e nos tornamos bons. Essa é uma das coisas em que me agarrei: você não precisa ter todas as respostas imediatamente. As pessoas esquecem que o cara que escreveu ‘No Surprises’, que foi apenas alguns anos depois disso, talvez três ou quatro anos, como ele evoluiu.”

O músico ainda traçou paralelos com os seus contemporâneos: “Nós não éramos como The Stone Roses. Nós éramos péssimos comparados ao Blur, todos esses tipos. E, depois de toda aquela turnê com Pablo Honey, as músicas que Thom estava escrevendo eram muito melhores. Durante um período de um ano e meio, de repente, bang.”

O show do Radiohead no Peru, em 2018, foi uma das raras ocasiões em que tocaram “Creep”.

Curiosidade: a origem do título “Pablo Honey”

Os discos do Radiohead, no geral, têm títulos bastante abstratos, enigmáticos e, às vezes, filosóficos. Não é o caso de “Pablo Honey”, cuja origem é bastante inusitada e irreverente. A banda Chapterhouse presenteou Thom Yorke e seus colegas uma fita de trotes cômicos, bastante popular em Nova York, produzida por uma dupla chamada Jerky Boys.  

Em um dos trotes da fita, o Jerky Boys se fez passar pela mãe da pessoa que estava do outro lado da ligação que, por um acaso, se chamava Pablo. Na chamada, o interlocutor dizia: “Pablo, querido? Por favor, venha para a Flórida”. Para a banda, era uma das esquetes mais divertidas, por isso, utilizaram a expressão no título do álbum. “Pablo Honey era apropriado para nós, sendo todos filhos de mães”, justificou Thom Yorke (via Far Out Magazine).

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