Com quatro décadas de estrada, Humberto Gessinger demonstra uma visão madura e menos cética sobre a própria trajetória. Se no início da carreira o ex-líder dos Engenheiros do Hawaii rechaçava termos como “missão”, “dom” e “predestinação” aplicados a trabalhos artísticos, hoje ele mantém uma opinião mais favorável a esses conceitos.
A visão de Humberto Gessinger sobre trajetória e destino
“Passados 40 anos e vendo assim as curvas do meu caminho, as coisas improváveis que aconteceram, eu comecei a acreditar nessa coisa assim de… não que te faça melhor ou pior do que os outros, mas que realmente tem uma linha na tua vida. Contra a qual tu até pode lutar, mas que tu vai te dar mal”, explicou o músico em entrevista ao jornal Zero Hora.
Para Gessinger, essa “linha” não deve ser encarada como um fardo fatalista, mas como uma essência. “Não que tu tenha que ser um fatalista, ‘tô condenado a isso’, não. Mas eu acho que tem umas coisas meio escritas assim. E, para mim, fazer música é isso. Não é uma opção. Eu não sei como, cara, eu não sei fazer mais nada. Eu uso como uma metáfora, mas é verdade: eu não sei nadar, velho”, acrescentou o cantor e compositor gaúcho.
Gessinger reflete ainda sobre a distinção entre o ofício e a vocação. Para ele, a música transcende a profissão, ocupando um espaço vital em sua formação como indivíduo: “Não tenho o menor interesse em deixar de fazer isso mesmo. Porque a gente tem que saber separar também o que é ter uma vida profissional, o que é fazer disso tua profissão, e o que é viver espiritualmente disso, né? Eu vivo espiritualmente de música”, disse.
Em seguida, ele emendou um raciocínio comparando a nostalgia do público em relação aos anos 1980 com sua fase nos Engenheiros do Hawaii: “É que nem a saudade. Me perguntam muito sobre a saudade dos anos 80. Não tenho a menor saudade. Mas mais do que não ter saudade, cara, eu sei que assim: não existe um passado, existem vários passados e várias saudades.”
Engenheiros do Hawaii e nostalgia dos anos 1980
Para o músico, o que as pessoas chamam de saudade pode ser, na verdade, a lembrança da juventude ou da abertura do mercado brasileiro na época: “Tu pode ter saudade do quê? De uma época em que a música que tu tocava tinha muita exposição? De uma época em que tu era jovem? De uma época que, para ti, comprar uma guitarra gringa era uma novidade? São várias saudades que tu pode ter, né?”

